Quinta-feira, 20 de Setembro de 2007

Uma carta diferente

Querido filho Manoel Joaquim:

 

Escrevo-te estas linhas para que saibas que
a mãe está viva. Vou escrever bem devagar,
pois sei que não consegues ler depressa
Caso estejas sem tempo para escrever
à mãe, manda-me uma carta dizendo que quando
estiveres mais tranquilo vais mandar notícias.
Temos agora uma máquina de lavar roupa.
Mas não trabalha muito bem. Na semana passada
pus lá 14 camisas, apertei o botão e nunca mais as vi.
Vais ver que esta marca Hydra não é das melhores.

Tua irmã Maria está grávida.
Mas ainda não sabemos se vai ser menino
ou menina. Portanto, não podemos dizer-te
se vais ser tio ou tia.
Teu pai arranjou um bom emprego.
Tem 2300 homens abaixo dele.
É o responsável pelo corte da relva no cemitério.
Quem anda sumido é o teu tio Venâncio,
que morreu no ano passado.
Lembras-te do tio Joaquim? Então... afogou-se
o mês passado num depósito de vinho.
Oito compadres dele tentaram salvá-lo,
mas o tio lutou bravamente contra eles.
O corpo foi cremado há duas semanas.
Levaram oito dias para apagar o incêndio
Os engarrafadores de refrigerante daqui
finalmente tiveram a grande ideia de colocar
uma indicação na tampinha, dizendo
"abra por aqui". Facilitou-nos muito a vida.
Espero que os daí façam a mesma coisa.
Caso esteja difícil para ti, a mãe manda-te algumas garrafas. Teu irmão, João Manuel, continua
o mesmo de sempre. Na semana passada fechou o
carro com as chaves dentro.
Perdeu um tempão indo até a casa pegar a cópia
da chave, para poder tirar-nos todos
de dentro do automóvel. Estava um calor de rachar.
Por falar em calor, o tempo aqui está muito
estranho. Esta semana só choveu duas vezes.
Na primeira vez choveu durante 3 dias e
na segunda vez choveu durante 4 dias.

Esta carta mando-a através do Gabriel,
que vai amanhã para aí.
A propósito, será que podes pegá-lo
no aeroporto?
Lembrei-me de uma coisa importante. Terás um
problema para falar com a mãe, caso decidas
escrever-me… Não sei o endereço
desta casa nova.
A última família que morou aqui, antes de nós,
também era portuguesa, levou a placa da rua
e o número da casa para não precisar
mudar de endereço.
Se encontrares a Teresa, dá-lhe "um olã"
da minha parte. Caso não a encontres,
não precisas dizer nada.

Adeus.

Tua mãe que te ama.
Fátima Manoela da Alcova

 

PS: Ia mandar-te 2.000 euros,
mas fica para outra vez.
Já fechei o envelope
 

anarizado por Horácio Evaristo às 19:08
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